Artes e Ofícios
Olaria tradicional
A olaria é um ofício e uma arte que em Viana do Alentejo teve grande expressão no passado estando, inclusive, presente na toponímia urbana, com a existência de uma rua da Olaria. Atualmente, restam poucas olarias, mas que têm desempenhado um importante papel para preservar esse saber e essa tradição.
Até há algumas década atrás os oleiros de Viana iam buscar o barro à herdade dos Baiões onde – segundo tradição oral ainda não comprovada documentalmente – tinham a autorização para poder extrair a matéria-prima, concedida em 1255 pelo rei D. Afonso III. Em troca, davam ao proprietário da herdade um determinado número das peças que fabricavam. Mais recentemente os oleiros passaram a adquirir externamente a matéria prima.
Em 1650 contavam-se cerca de 20 oleiros e em 1890 existiam na vila 17 olarias que empregavam um total de 37 oleiros. Nessas épocas, o ofício era passado de geração em geração, em oficinas familiares. As olarias desde sempre apresentaram estruturas patriarcais, onde o ofício de oleiro era passado de pai para filho. Esta pequena economia doméstica só era alterada quando a procura de peças aumentava, levando o oleiro a contratar mão-de-obra à jorna.
Esta dinâmica familiar também era visível no tipo de trabalhos desenvolvidos no espaço da olaria, que se encontravam divididos por sexo e idade: o jovem aprendiz, com cerca de 6 anos, começava por aprender as bases do ofício, acompanhando o mestre nas tarefas de recolha, preparação do barro e posteriormente nos processos de modelagem. O homem, mestre oleiro, geria a oficina e realizava os trabalhos mais exigentes, nomeadamente a preparação da matéria-prima e os processos de modelagem e cozedura. Até 1982, as mulheres limitavam-se a pequenas tarefas.
Todavia, a fundação da escola de olaria Médico de Sousa, a 28 de outubro de 1893, promovida por António Isidoro de Sousa, no âmbito da ação da União Vinícola e Oleícola do Sul, veio alterar a forma de transmissão desse conhecimento, facultando a aprendizagem da arte oleira a todos aqueles que a quisessem adquirir.
O alguidar e a panela são as peças mais emblemáticas da olaria tradicional de Viana do Alentejo. Aliás, o alguidar de Viana possui característica especifica que o distingue de outros alguidares produzidos noutros centros oleiros do Alentejo. O bordo é mais saliente, pelo que permite segurar a peça com maior segurança, inclusive com as mãos molhadas.
Até 1982 as peças da olaria de Viana não recebiam nenhum tipo de decoração e possuíam unicamente funções utilitárias. A partir de então iniciou-se a decoração de algumas peças com Feliciano Branco Agostinho, numa mistura da experiência adquirida na oficina familiar com as aprendizagens que o próprio obteve na escola Médico de Sousa. Com o surgimento da decoração, a sensibilidade feminina foi então canalizada para as tarefas de desenho preparatório e pintura.
A decoração éfeita através de pressão, por incisão, ou com pintura sobre a superfície do objeto. Os ornamentos podem apresentar características geométricas, com combinações de formas mais simples com outras mais complexas e feitios vários; ou utilizando uma temática etnográfica e figurativa. As cores predominantes são o castanho, uma escala variada de azuis e outra de ocres. A paleta cromática permite deduzir que esta surgiu no seguimento das experiências realizadas neste âmbito por Júlio Resende, professor na escola de olaria Médico de Sousa entre 1949 e 1951, período em que comprava as cores na casa Chambres, no Porto.
A decoração de algumas peças permitiu também enveredar por uma olaria que se configura, ela mesma, como decorativa. O que também veio abrir as portas de um outro tipo de mercado, uma vez que as peças utilitárias em barro rude deixaram de ser consumidas, porque foram ultrapassadas por peças de louça fina com melhor acabamento ou fabricadas noutros materiais mais leves e práticos, como o plástico.
Fátima Farrica

