Património Religioso
Igreja de Santa Maria (de Foxem)
A primitiva igreja paroquial do aglomerado urbano que hoje designamos por Viana terá sido construída, ou reconstruída, na década de 60 do século XIII, após D. Gil Martins de Riba de Vizela ter recebido, cerca de 1259, a herdade de Foxem (território onde se implementou vila), e situava-se em local ligeiramente afastado daquele onde se encontra hoje implantada a atual igreja Matriz.
Dedicada a Santa Maria, a primitiva igreja terá resultado dos desígnios de Gil Martins, primeiro senhor de Viana, e era utilizada para os serviços religiosos da comunidade que habitava o aglomerado urbano, na época designado por Foxem.
Essa pequena igreja estaria edificada, no local onde funciona atualmente o Posto de Turismo, ou seja, à esquerda de quem entra hoje pela porta norte do castelo, cujo recinto amuralhado só viria a ser construído entre final do século XV e o princípio do século XVI.
Em redor dessa primitiva igreja estabeleceu-se o cemitério, como têm evidenciado os enterramos aí encontrados, bem como as estelas funerárias que marcavam as sepulturas medievais.
Com a construção da nova igreja paroquial/Matriz, no início do século XVI, a primitiva igreja foi desafetada do culto e as sepulturas que estavam no seu interior foram trasladas para o interior da nova igreja.
Posteriormente, nesse espaço e, eventualmente, numa parte superior do mesmo, terão funcionado os paços do concelho da vila, uma vez que é certo que entre 1580 e o final do século XVII a câmara funcionou dentro do castelo.
Fátima Farrica
Igreja de Nossa Senhora da Anunciação (Matriz)
A igreja de Nossa Senhora da Anunciação, mais conhecida por igreja Matriz, está implantada no interior do castelo e é uma construção do início do século XVI, que se integra na corrente arquitectónica do Gótico, com elevada expressão do estilo decorativo Manuelino, sobretudo no portal, considerado um dos mais preciosos exemplares deste estilo no sul do país.
Obra atribuída a Diogo de Arruda que em 1521 foi nomeado mestre-de-obras do rei na comarca do Alentejo e um dos nomes mais insignes da arquitetura deste período. Em 1534 a igreja paroquial ainda era designada "de Santa Maria", mas não sabemos se essa referência se reportava à igreja primitiva ou a este novo templo. Certo é que a invocação "de Nossa Senhora da Anunciação" terá sido conferida mais tarde, em momento desconhecido.
É uma igreja de três naves, onde se encontram vários elementos decorativos de estilo manuelino e de inspiração mudéjar nas abóbadas, nas pias de água benta e nos altares. Possui três capelas principais: a capela-mor dedicada a Nossa Senhora da Anunciação, onde se encontram as imagens da Virgem Maria e do Anjo Gabriel que lhe anuncia que vai ser mãe de Jesus; a capela de Nossa Senhora do Rosário, com um retábulo maneirista, do lado do Evangelho; e a capela das Almas, com retábulo do século XVIII, de talha dourada e marmoreada, do lado da Epístola.
Os alçados laterais da igreja são revestidos de silhares de azulejos policromos com três tipos de padrão, que datam, tal como o púlpito, do século XVII.
As frestas do transepto que iluminam a igreja possuíram vitrais do século XVI, profundamente intervencionados no século XX, e que representam S. Pedro e um personagem identificado, com reservas, como D. Nuno Álvares Pereira, o Santo Condestável. Encontram-se hoje expostos no espaço interpretativo do castelo.
Na nave lateral esquerda, próximo da sacristia, destaca-se o altar do Menino Jesus em talha dourada, de estilo rococó, montado no século XVIII. Na mesma nave encontra-se a capela tumular de Diogo Godinho, cavaleiro da Casa de D. Manuel I, que encomendou por sua alma duas missas por semana, para sempre, para o pagamento das quais deixou metade da herdade da Ramalha. Todavia, em 1534 já as missas não eram ditas e a herdade não tinha rendimento.
Mais recentemente esta capela foi consagrada ao Senhor Jesus dos Passos por nela se ter instalado a confraria da mesma invocação e, em tempos, a imagem respetiva. A sua estrutura data da época da fundação do edifício, mas recebeu vários elementos barrocos.
A pia da batismal deverá provir do século XVI, mas as pinturas que decoram os alçados do espaço onde está inserida são do século XIX.
À direita da entrada da igreja encontra-se o monumento fúnebre erigido em 1859 para receber os ossos do padre Luís António da Cruz, falecido em 1848.
Sobre a sacristia, com acesso pelo exterior do edifício, localiza-se capela de Santo António.
Proteção: Monumento Nacional, Decreto de 16-06-1910, DG n.º 136 de 23 junho 1910 / ZEP / Zona "non aedificandi", Portaria, DG, 2.ª série, n.º 150 de 30 junho 1948.
Fátima Farrica
Igreja da Santa Casa da Misericórdia
A igreja da Santa Casa da Misericórdia está adossada ao pano norte da muralha do castelo. É uma obra de estilo Manuelino, do primeiro quartel do século XVI, e é atribuída à esfera de atuação de Diogo de Arruda, arquiteto régio e um dos principais nomes da arquitetura portuguesa deste período.
O portal foi lavrado em calcário da região e é constituído por arcatura polilobada com decoração de óvulos, cordas e nós (elementos decorativos do estilo Manuelino) e rematado por alcachofras estilizadas, ao gosto decorativo conhecido nos irmãos Arrudas (Diogo e Francisco de Arruda).
Tem planta retangular, de uma só nave com cobertura de abóbada nervurada, capela-mor, sacristia, coro alto, púlpito e um banco de alvenaria que corre ao longo do alçado norte, mas já não possui o cadeiral onde os administradores da Misericórdia (mesários e provedor) assistiam às cerimónias religiosas.
A capela-mor, separada da igreja por arco triunfal, é de planta quadrangular e possui uma abóbada polinervada, guarnecida de bocetes cilíndricos, fitomórficos, representativos do exotismo da arte portuguesa do final do estilo Gótico.
O corpo da igreja e a capela-mor foram revestidos de azulejos, em padrão de tapete, policromo, no século XVII, presumivelmente pouco depois de uma campanha de obras, finalizada por volta de 1644, em que a igreja Matriz também recebeu revestimento azulejar.
Os problemas de infiltrações e humidade foram uma constante desde o século XVI. Esta circunstância, devida ao facto do edifício se encontrar, parcialmente, abaixo do nível do solo, fez com que em 1558 o retábulo original já estivesse perdido e motivou planear, nesse ano, a transferência da igreja para a praça. Mudança que em 1572 ainda não se efetuara sendo a ideia abandonada em 1573.
Na antiga sacristia existe lavabo de mármore feito, segundo Espanca, em 1688 a expensas do provedor Dr. Domingos Coelho Reidono.
O púlpito, de base quadrada em mármore, possui balaústres de ferro tendo sido lavrado, segundo Espanca, na década de 1670 com esmola dada pelo arcebispo de Évora, D. Diogo de Sousa.
Nas primeiras décadas do século XVIII foi encomendado um novo retábulo para a capela-mor o que fez sacrificar a pintura mural – que complementava a campanha decorativa de aplicação dos azulejos – e obrigou a reconfigurar os tapetes azulejares, mantendo-se os azulejos originais. Este retábulo Barroco, de talha, com a tela da Visitação de Santa Isabel nunca chegou a ser dourado.
Na segunda metade do século XIX, para ajudar a diferenciar o espaço destinado aos mesários e ao provedor da Misericórdia, removeu-se parte dos azulejos do alçado sul da igreja para execução de uma pintura mural de padrão geométrico que enquadrava o cadeiral, então existente. Os azulejos retirados foram, provavelmente, transferidos de forma descuidada para o espelho do banco que fica no alçado norte.
No pavimento da nave existem várias sepulturas de irmãos da Misericórdia do século XVI e posteriores.
Fátima Farrica
Igreja do Espírito Santo (casa mortuária)
De pequena dimensão, situada na atual rua Pe. Luís António da Cruz, poderá ter sido edificada ainda no século XVI e nela funcionou a confraria da mesma invocação. Em 1700 estava em ruínas e foi mandada reedificar pelo juiz de fora Dr. Bento Barradas Lobo. Foi reinaugurada no ano seguinte sendo que a primeira missa se celebrou no dia de São Silvestre e foi dita por Fr. Manuel de Santo António, do convento de São Francisco.
Virada a norte, o portal é enquadrado por moldura de mármore branco onde se lê a seguinte inscrição: Esta Casa he do Espirito Samto. Possui ainda, do lado esquerdo do observador da fachada, uma cruz encastrada feita da mesma pedra com a inscrição IHS. Esta é a sigla da expressão Iesus Hominibus Salvatoren que significa "Jesus Salvador dos Homens".
Tem planta retangular, com capela-mor separada por arco redondo com cobertura apainelada de caixotões quadrangulares, barrocos. Desafeta do culto foi adaptada para casa funerária na década de oitenta, depois de, durante anos, ter servido de armazém.
Fátima Farrica
Capela de Santo António
Situada por cima da sacristia da igreja de Nossa Senhora da Anunciação (Matriz), a ela se acede por lance de escadas exteriores àquela igreja.
Em estilo Manuelino, o espaço terá sido construído no século XVI, embora, originalmente, possa ter tido outra função antes de ser convertido em capela.
Esta capela possuiu uma confraria da mesma invocação, pelo que o espaço pode ter começado por ser a sede da mesma, já servindo para o culto de Santo António em ano indefinido posterior a 1751 e, seguramente, em 1758. Possui campanário próprio com pequeno sino de bronze.
Tem cobertura de nervuras de aresta viva e fechos circulares de granito.
Foi mandada pintar em estilo neoclássico por João António Silveiro e Silva em 1828, de acordo com inscrição existente no próprio espaço.
O altar é revestido a estuques marmoreados e nele se venera Santo António.
Fátima Farrica
Capela de Nossa Senhora da Assunção
Segundo Espanca, esta capela foi inaugurada em 1700 no espaço superior dos antigos Paços do Concelho, provavelmente depois de aqueles terem sido transferidos para a praça (por volta de 1700). Todavia, na Corografia Portuguesa de Carvalho da Costa, obra publicada em 1708, esta capela não foi citada, talvez por esquecimento do autor. No entanto, já em 1758 foi referida nas Memórias Paroquiais.
Segundo aDescripção da Villa de Vianna, manuscrito de autor desconhecido, posterior a 1751, esta capela também já teria sido chamada de Nossa Senhora da Porta do Castelo, o que supomos que se devia à sua localização, por cima da porta norte daquele recinto amuralhado. De acordo com aquela mesma fonte de informação a imagem era milagrosa e venerava-se com jubileu no seu dia (15 de agosto).
No interior tem uma única nave, com cobertura por abóbada de barrete de clérigo decorada por pintura mural, de autor desconhecido. Dela faz ainda parte um pequeno vestíbulo a este. No exterior possui campanário de alvenaria com acrotérios triangulares.
Espanca crê que terá servido de capela mortuária a partir de 1840 e até 1871, altura em que o cemitério, que se localizada ao lado, deixou de receber sepultamentos devido à construção do cemitério fora da vila.
Após desafetação do culto nela se instalou a Junta de Freguesia que aí funcionou durante parte do século XX.
Durante séculos esta capela deu o nome à rua que parte da porta norte do castelo, no sentido de Évora, que se chamou rua da Assunção – depois de ter sido conhecida por rua Direita, e antes de receber o topónimo atual de Cândido do Reis.
Situada no paramento norte do recinto amuralhado do castelo, a capela tem um alçado em comum com o coro-alto da igreja da Misericórdia. O seu acesso já se fez através da muralha, mas o último projeto de recuperação, conservação e valorização do castelo determinou a recuperação do acesso primitivo (que existiu até à década de setenta do século XX) através do espaço ajardinado que se ligou, por passadiço, ao vão de sacada situado na fachada sul do edifício.
Proteção: Incluída na Zona de Proteção do Castelo e da Igreja Matriz.
Fátima Farrica
Capela de Nossa Senhora da Conceição
Obra do século XIX, ou talvez ainda do XVII, foi a capela privativa da casa de morada do Pe. Luís António da Cruz, situada na rua que hoje tem o seu nome, mas que se chamou dos Carreteiros até ao princípio do século XX.
O portal de entrada é encimado, no exterior, por inscrição em latim que significa "Quem faz o bem, nasceu de Deus".
De pequenas dimensões, possui um só altar e uma sacristia. Nela se venera Nossa Senhora da Conceição e aí se encontram também as imagens de São João Baptista, de São Francisco Xavier e de São José. Todas do século XVIII e que se presume serem oriundas do mosteiro do Bom Jesus. A pia de água benta, uma vez que datará do século XVI, terá sido recuperada de outro edifício religioso mais antigo.
Na década de 1930 a capela sofreu alguns benefícios pelas mãos do artista José Basalisa, altura em que recebeu o rodapé, com apainelados azulejares em azul e branco. O teto é pintado com temática naturalista, ornatos, albarradas e medalhões e nele surgem símbolos marianos. O altar-mor é feito em estuques e aplicações de talha dourada e possui nicho envidraçado onde se venera a imagem da padroeira.
Possuiu serviço religioso com missa quotidiana até à década de setenta do século XX, assegurada pelo capelão do Instituto de Piedade e Beneficência, instituição que funcionou no edifício onde a capela se insere entre 1848 e 1979.
Fátima Farrica
Capela de Nossa Senhora da Graça (capela do hospital)
A igreja, situada na rua a que dá o nome – da Graça –, faz parte do conjunto edificado originado pela antiga albergaria de Santa Maria. Ainda antes do ano de 1319, Fernão Martins e sua mulher, D. Maior, e seus filhos fundaram no local uma ermida e uma albergaria ou hospital da invocação de Santa Maria.
A 8 de Junho 1319 foi fundada, no mesmo espaço, a confraria dos Homens Bons Ovelheiros que passou a administrar a albergaria gerindo todos os seus bens. As confrarias eram associações de cristãos para a prática da caridade pelo que, geralmente, tinham anexos hospitais ou albergarias. Neste caso trata-se de uma confraria de homens bons, ou seja, dos indivíduos mais proeminentes da localidade, os mais ricos e poderosos entre os quais se elegiam os que ocupavam os cargos do governo camarário. Esta confraria reunia também os que detinham um mesmo ofício, eram criadores de gado ovino.
Com o passar dos séculos, a designação de albergaria de Santa Maria foi suplantada pela de hospital de Nossa Senhora da Graça que já era usada em 1534.
Em data desconhecida do século XVI, provavelmente entre 1544 e 1582, a albergaria/hospital e a ermida foram integradas na Santa Casa da Misericórdia – que tinha sido fundada em 1516 – que passou a gerir todos os seus bens, assim como o próprio serviço hospitalar. A partir daqui perde-se o rasto da confraria, presumivelmente extinta nessa época.
Do século XVI é também a fisionomia arquitetónica da atual igreja, que resultará de obras realizadas sobre a ermida medieval. Destaca-se o portal de mármore semelhante à porta lateral da igreja Matriz, que Túlio Espanca afirma ser obra dos mesmos mestres.
Tem nave de planta retangular que, segundo Espanca, terá sido antecedida por nartex, que teria sido sacrificado para construir o vestíbulo do antigo hospital. Possui capela-mor de planta quadrada antecedida de arco triunfal em pedra. Quer na nave, quer na capela-mor as abóbadas são de cruzamento de ogivas, apresentando fechos e mísulas com a representação de diferentes figuras entre as quais se encontra a cruz da Ordem de Cristo.
O retábulo, obra de estilo Maneirista, é de talha e resulta de reforma do século XVII. É constituído por pórtico de dois andares onde se encontram seis exemplares de pintura sobre tábua. Assenta sobre mesa de mármores negro e branco, do final do século XVIII, decorada por tabela Rococó de enconchados e com o emblema A.M.
A igreja possui ainda uma sacristia, de época coeva à do edifício, onde se encontra um lavabo de mármore do século XVIII.
O templo alberga as imagens de N. Sr.ª da Graça, escultura de madeira da época de D. João III, e uma imagem moderna de N. Sr.ª de Fátima, mas atualmente está desafetado do culto.
Fátima Farrica
Santuário de Nossa Senhora de Aires
O local de implantação deste santuário foi palco da presença humana pelo menos desde a Época Romana e recebeu a longo do tempo a passagem frequente de viajantes.
A explicação quer da construção de um santuário antecessor ao existente, quer da origem da imagem da Senhora venerada no altar, tem estado envolta em duas lendas sobejamente divulgadas. Contudo, sabemos hoje que o santuário atual foi antecedido por um outro templo cuja origem remonta ao século XV. Esse edifício foi demolido em 1743 para se iniciarem as obras da nova igreja.
A construção inicial seria devedora à ação do lavrador Martim Vaqueiro que terá habitado na herdade onde o santuário foi implantado, chamada dos Vaqueiros ou das Paredes. De facto, um lavrador chamado Martim Vaqueiro vivia na periferia de Viana no século XV e os Vaqueiro integraram a nobreza vianense nos séculos XV e XVI.
Com o aumento do número de peregrinos e a necessidade de acomodar um número crescente de ex-votos, tornou-se essencial a construção de um novo espaço de culto, maior e mais adequado à opulência e ao gosto dos tempos barrocos, como aconteceu noutros locais do reino. Facto que conduziu à demolição da igreja antecedente.
Oedifício atual, de estilo Barroco, teve início em 1743 e foi concluído, grosso modo, em 1792, sendo que é já no final do XVIII e no decorrer do século XIX que o interior do templo recebeu a decoração pictórica da nave e da capela-mor e o trabalho ornamental dos estuques.
A primeira missa foi dita na capela-mor em 1760, mas verificou-se uma nova sagração do templo, após se considerar a conclusão definitiva das obras, em 1804, por frei Manuel do Cenáculo Vilas Boas, então arcebispo de Évora.
O autor do desenho da nova igreja foi o padre oratoriano João Baptista, da Congregação de São Filipe de Néri de Estremoz; o mestre-de-obras foi Manuel Gomes, que dirigiu a obra da Sé de Évora, e o entalhador do retábulo/baldaquino João de Almeida Negrão, de Évora.
A obra obrigou a investimentos elevados executados com as fontes de rendimento da confraria que geria o culto e com as esmolas dos fiéis.
O mais antigo ex-voto pintado hoje subsistente está datado de 1735, lamentando-se a perda de muitos dos que existiram. Com a passagem do tempo, todavia, os antigos ex-votos pintados foram suplantados pelas inúmeras fotografias, e outros artefactos, que recobrem os corredores em volta do santuário, depostos em reconhecimento das graças concedidas.
O interior do santuário combina a cruz latina com a capela-mor centralizada. Esta é ladeada por opulentas colunas de mármore verde, sobrepujada por cúpula octogonal e tem, no centro, um magnífico baldaquino lavrado em talha dourada. Esta imponente estrutura retabular, rococó, foi encomendada em 1757.
A estética barroca do palácio-convento de Mafra e da capela mor da Sé de Évora, da autoria de Frederico Ludovice, foi transferida para o santuário de Viana, nomeadamente no uso do mármore.
No século XVIII faziam-se diversas romarias à Senhora de Aires, em datas distintas, de romeiros vindos de várias localidades alentejanas. Os romeiros de Évora ali se deslocavam no 4º Domingo de Setembro cuja festa durava 3 dias. A grande afluência de pessoas terá atraído ao recinto do santuário vários mercadores que vinham vender os seus produtos. Tal facto determinou que D. José instituísse, por alvará que se diz ter sido datado de 27 de setembro de 1751 e assinado pelo ministro Sebastião Carvalho e Melo (Marquês de Pombal), a feira anual que ainda hoje se realiza.
A cerca de 200 metros do santuário encontra-se a ermida do Senhor Jesus do Cruzeiro que une o culto de Cristo ao culto de Maria, associação ocorrida em Portugal nos séculos XVII e XVIII.
Proteção: Monumento Nacional, Decreto n.º 31-J/2012, DR, 1.ª série, n.º 252 de 31 de dezembro de 2012.
Fátima Farrica
Ermida de Santo André e cemitério municipal
Atualmente esta pequena ermida está inserida dentro do cemitério municipal, mas é pré-existente ao mesmo. Desconhece-se quem ou que factos poderão ter motivado a sua elevação, mas terá sido construída no século XVII, pois já existia em 1708, e dessa mesma época é a sua aparência arquitetónica. Só em 1871 foi construído o novo cemitério de Viana na sua envolvência, cuja localização se deve ao médico António José de Sousa, pai de António Isidoro de Sousa.
Ermida composta por nave e capela-mor, com cobertura em telhado de duas águas na nave; e em cúpula e agulha piramidal na capela-mor. A fachada principal, que possuiria galilé, foi reformulada com pano único rematado por frontão triangular e pórtico central com duas pequenas janelas colaterais. As fachadas laterais são contrafortadas. No interior, tem cobertura em abóbada de arco de volta perfeita, na nave, e em cúpula sobre trompas, na capela-mor.
Desde a Idade Média e até ao século XIX os sepultamentos eram feitos no interior das igrejas (paroquiais, conventuais, catedralícias, de misericórdias, etc.) e nas suas imediações por se considerarem esses solos sagrados, mais próximos do Divino. Porém, na sequência da implantação do novo regime político do Liberalismo em 1820 foi promulgado o Decreto-Lei de 21 de setembro de 1835 – durante o governo Cartista do Duque de Saldanha – que determinou que em cada concelho tinha de existir pelo menos um cemitério fora das localidades, por razões de higiene e de saúde pública. Este Decreto foi completado com o Decreto de 28 de setembro de 1844, promulgado durante o governo de Costa Cabral, que proibiu os enterramentos nas igrejas e impôs que os sepultamentos passassem a ser feitos em cemitérios.
Todavia, estas novas determinações não foram isentas de polémicas e até de guerras. Afastar os mortos dos espaços sagrados, onde tinham sido depositados durante séculos, pareceu, na época, uma aberração. Por isso, a proibição dos enterramentos nas igrejas determinou uma revolta no Minho, em 1846, que ficou conhecida como a revolta da Maria da Fonte. Revolta na sequência da qual se desenrolou a guerra civil da Patuleia entre Cartistas, que representavam a rainha, e os revoltosos Setembristas/Miguelistas. Esta guerra teve um combate nas imediações de Viana do Alentejo (localidade que se manteve fiel à rainha) em outubro de 1846, na zona do ferragial d'El Rey. Este confronto, tal como a própria guerra, terminaram com a vitória dos Cartistas.
Porém, a escassez de recursos fazia com que os cemitérios não fossem feitos com a rapidez desejada. O cemitério de Viana surgiu, assim, do contexto histórico apresentado, mas só foi executado décadas depois das determinações do governo central.
Numa atitude progressista, o vianense Francisco de Melo Cabral e Sousa determinou a construção do primeiro jazigo do cemitério de Viana, disposição que se encontra no seu testamento, datado de 1872. Porém, a sua edificação poderá ter começado ainda em vida do testador, uma vez que este só veio a falecer em 1875. Este mausoléu, localizado na rua principal do cemitério, é o primeiro do lado direito de quem sai da ermida de Santo André e tornou-se o jazigo de família Cabral, Morgados de Santa Catarina de Estremoz.
O cruzeiro que fica defronte do cemitério foi para aí transferido em 1889, sendo oriundo das imediações da ermida de S. Sebastião, onde antes se encontrava.
Fátima Farrica
Ermida do Senhor Jesus do Cruzeiro
Esta ermida está localizada a cerca de 200 metros a sudeste do santuário de Nossa Senhora de Aires.
Apesar de a devoção a Cristo ser muito antiga, o grande surto cristológico em Portugal ocorreu nos séculos XVII e XVIII, época em que a devoção popular ao Crucifixo fez aumentar o número quer de pequenas capelas, quer de grandes santuários dedicados a Jesus localizados no exterior das localidades. A par desta devoção desenvolveu-se, na mesma época, o culto mariano e a construção dos santuários que lhe dão expressão, como é o caso do atual santuário de Nossa Senhora de Aires que resultou de uma substituição, feita no século XVIII, de um edifício primitivo que remontaria ao século XV.
A construção da pequena capela do Senhor Jesus do Cruzeiro de Viana é, também ela, uma manifestação da devoção popular ao Crucifixo na centúria de Setecentos. Por isso a sua planta é em cruz grega.
Segundo informação documental da época, a construção da ermida foi determinada em 1742 para ser executada no local de um cruzeiro pré-existente, pois aí já existia uma "cruz do Senhor Jesus da Pedra". Essa cruz seria o cruzeiro em mármore, quinhentista, que está hoje no recinto do castelo e que para aí terá sido transferido no século XIX ou, até mesmo, já no século XX.
Estamos em crer que esse cruzeiro, que ficava junto à estrada que ia para Nossa Senhora de Aires e onde está representado, de um lado, a morte de Cristo e, do outro, o Menino Jesus a ser amamentado por Maria, estava ali para assinalar o caminho para o santuário e a aproximação desse templo sagrado, como acontecia com a presença de inúmeros cruzeiros junto a diversas ermidas espalhadas pelo território nacional. Ao mesmo tempo integrava uma narrativa, a da vida de Cristo: amamentado na infância pela Virgem e depois, em adulto, crucificado. Percurso que se completava com a imagem venerada um pouco mais além, no santuário, que retrata o momento após a descida da Cruz, ao ser deposto no colo de Maria.
Por escritura de quinze de novembro de 1742, Geraldo da Silva Rocha, morador em Ferreira, que era possuidor de um ferragial com vinha e pomar no sítio do cruzeiro, coutos da vila, doou, no dito ferragial, junto à cruz do Senhor da Pedra, um pedaço de terra para se fazer a igreja. Este tinha quarenta e seis palmos de comprimento e vinte e três de largura. Determinou-se ainda, no mesmo ato, que a porta da igreja ficaria virada para a estrada que ia para Nossa Senhora de Aires.
No mesmo documento é citado o irmão Manuel Frutuoso que, por devoção, pedia para as obras da igreja do Senhor Jesus da Pedra. Seria, provavelmente, membro de alguma irmandade ou conjunto de fiéis que, de forma mais informal, venerasse a referida cruz.
Em 1755 a ermida do Cruzeiro – por representar a Cruz de Cristo – já estava construída. Nela existiu uma inscrição que indicava que foi financiada com as esmolas dos fiéis e aí se celebrou a primeira missa a 26 de setembro de 1756.
Dada a época de elevação, a capela é de estilo Barroco, com planta em cruz grega de braços pouco salientes, praticamente quadrangular, coberta de cúpula hemisférica. A abóbada, assente em trompas, possui um lanternim octogonal destinado a proporcionar mais iluminação ao interior e que é coroado no exterior por um coruchéu.
O portal é enquadrado por duas janelas quadrangulares idênticas e abre-se sobre o mesmo uma janela em forma de trevo. A fachada é rematada por um pequeno frontão, decorado com uma vieira, sobre o qual se ergue uma cruz de remates trilobados.
A capela encontra-se atualmente muito degradada. O interior, de espaço unificado, foi despojado dos elementos originais, incluindo do retábulo-mor. São ainda visíveis alguns vestígios de terem existido pinturas murais.
Proteção: Monumento Nacional, Decreto n.º 31-J/2012, DR, 1.ª série, n.º 252 de 31 dezembro 2012
Fátima Farrica
Ermida de São Pedro
Pela aparência, esta ermida deverá ter sido edificada no século XVI, em zona rural hoje conhecida pelo mesmo nome. De facto, sabemos que já existia em 1534, mas desconhece-se o seu encomendante bem como os motivos da sua construção.
De certa importância arquitetónica, encontra-se inserta em propriedade privada, mas, infelizmente, está em estado de ruína muito avançado.
Esta ermida integra-se no estilo gótico-mudéjar da região Alentejana. Possuía uma só nave com abóbada de arestas. De época posterior seria a capela-mor, de planta quadrada e com cobertura em forma de cúpula, bem como o nartex.
Possui hoje apenas os alçados laterais da nave e os alçados da capela-mor. Todavia, apesar de o edifício ser irrecuperável, é ainda visível, apenas na capela-mor, a existência de pintura mural que será coetânea com a reedificação da cabeceira. A composição pictórica seria dedicada ao padroeiro e estaria pelo menos nos alçados. Vê-se ainda, na parede sul, Cristo com São Pedro. Nas trompas surgem os Evangelistas, identificando-se São Marcos, e na cúpula terão existido personagens sob nuvens que se coloca como hipótese poderem ter sido anjos músicos, como é habitual noutros templos católicos.
Os elementos estilísticos observados como as figuras, a paleta cromática, os ornamentos e a organização compositiva, levaram a integrar este exemplar de pintura a fresco no repertório da oficina de José de Escovar, ilustre pintor quinhentista eborense.
Fátima Farrica
Ermida de São Sebastião (casa mortuária)
Edificada em zona rural da vila, na saída de Viana para Alcáçovas, em data imprecisa, desconhece-se o seu fundador bem como os motivos da sua construção.
Túlio Espanca declara que foi fundada por iniciativa ou com o contributo municipal e que sofreu restauro no final do século XVII pago pela câmara, mas não indica onde se apoia para fazer estas afirmações. De facto, a sua existência será anterior uma vez que muitas das igrejas dedicadas a este santo eram uma realidade no século XVI. Contudo, efetivamente, o culto do mártir São Sebastião, padroeiro da fome, da peste e da guerra, era uma obrigação dos municípios e por estes organizado, assegurando também a construção e a manutenção de capelas ou ermidas que lhe eram dedicadas. Por isso, talvez a câmara tivesse sido a responsável por essa igreja que aliás, se situava num rossio do concelho. O culto deste santo assumiu um mais vincado cunho concelhio a partir o reinado de D. Sebastião (1557-1578).
Talvez nas suas imediações pudesse ter existido uma gafaria, ou seja, um espaço dedicado aos leprosos. Há referência documental, datada de 1408, à existência de gafos, em Viana, o que indica que a vila terá tido uma gafaria. Como era hábito, dado o perigo iminente de contágio da lepra, as suas instalações ficavam afastadas dos aglomerados urbanos e esta igreja estava na periferia da vila. Além disso, era ponto de cruzamento de caminhos, cujos frequentadores poderiam deixar alguma esmola.
Em 1894, também segundo Espanca, a ermida foi cedida pela câmara para nela funcionar o curso de desenho noturno da Escola de Olaria Médico Sousa, frequentado por 47 pessoas. Por essa altura terá perdido a sacristia e outras dependências anexas e, depois de 1910, o campanário e a cruz que a encimava. Já na segunda metade do século XX, o crescimento da vila, com a construção do novo bairro do Altinho, fez com que ficasse englobada em zona urbana.
Tem planta retangular, com capela-mor antecedida de arco redondo adornado com losangos em relevo. Aquela tem planta quadrada e é coberta por cúpula de meia-laranja de onde rompe uma lanterneta cilíndrica. O retábulo é de alvenaria e possui um nicho onde outrora se expunha o Santo padroeiro.
Desafeta do culto esteve muitos anos ao abandono, tendo servido de armazém, até ser restaurada para ser utilizada como capela funerária, utilização que tem na atualidade.
Fátima Farrica
Ermida de São Vicente
Segundo Túlio Espanca, a construção da ermida de São Vicente, no alto da serra com o mesmo nome e hoje em muito avançado estado de ruína, provém do século XVII.
Todavia, o local de São Vicente poderá ter tido a implantação de um espaço de culto cristão bastante mais antigo, pois esta invocação poderá estar relacionada com a presença de uma comunidade moçárabe (cristãos sob domínio árabe que mantinham a sua cultura e religião) onde aquele santo seria venerado, uma vez que São Vicente, um santo mártir do século IV, teve especial devoção entre os moçárabes.
Esta é uma igreja contrafortada de pequenas dimensões, mas desconhece-se o seu encomendante, bem como os motivos da sua construção. De igual modo não é conhecida a data da sua desafetação do culto religioso.
Tinha uma só nave, com abóbada de berço, e capela-mor quadrangular coberta por cúpula de meia laranja. Segundo Espanca possuiu pinturas a fresco.
Sobre os seus escombros foi colocado um marco geodésico em 1851.
Do alto das suas ruínas desfruta-se de uma imensa e longínqua paisagem alentejana.
Fátima Farrica
Oratório do Calvário
Construção de dimensões mínimas, em forma cilíndrica, encontra-se próxima da ermida de São Sebastião e na berma da estrada que vai de Viana para Alcáçovas. Trata-se de um pequeno oratório caiado e revestido, na parede exterior, de pedras salientes, o que deverá evocar o caminho pedregoso do Calvário percorrido por Cristo. Não se conhece a data nem os motivos da sua construção, mas deverá ser posterior a 1758, uma vez que não é referido nas Memórias Paroquiais da vila redigidas nesse ano, e poderá resultar de uma promessa particular.
Nas imediações deste local existiu um cruzeiro que foi transferido para a frente do cemitério em 1889. As duas construções poderão ter tido algum tipo de relação uma vez que ambas invocam a Paixão de Cristo.
A ele se chega por lance de seis degraus que dão acesso a pequeno e simples portal. No interior um capitel de mármore branco, possivelmente reaproveitado de alguma construção mais antiga, serviu para apoio de um crucifixo. Este capitel, transformado em base de crucifixo, esteve desaparecido do local até que um particular entregou no posto de turismo um capitel que, supostamente, será oriundo do oratório do Calvário.
Fátima Farrica
Mosteiro do Bom Jesus
O início da construção deste mosteiro, único feminino da Ordem de S. Jerónimo existente em Portugal, terá acontecido a 1 de agosto de 1554, no espaço designado por rocio das Hortas da Fonte Coberta. O edifício permitiu expandir a comunidade de um mosteiro pré-existente que estivera estabelecido nas imediações do Poço Novo (situado no cruzamento das atuais ruas Miguel Bombarda e António Isidoro de Sousa). Esse mosteiro fora fundado por D. Brites Dias Rodovalho.
O primeiro documento que refere a determinação de D. Brites em fundar um mosteiro data de 30 de abril de 1548, embora a intenção de o constituir já existisse, pelo menos, desde de 1512. Foi redigido em Lisboa, nas casas em que residia a Infanta D. Isabel, filha de D. Jaime (4º duque de Bragança) e mulher do infante D. Duarte (filho do rei D. Manuel I), com quem teria relações próximas. A fundadora declarou então que era solteira e sem herdeiros, que desejava viver o resto da vida em religião e que possuía em Viana umas casas, na rua do Poço Novo (atual rua António Isidoro de Sousa), onde tinha um oratório com a invocação de Jesus, estabelecendo que o mesmo, com as ditas casas, fosse instituído mosteiro de freiras. Essas casas provinham de doação feita pelos pais e, presumivelmente, também da compra de mais algum espaço edificado. Para a fundação do mosteiro doava também todos os seus bens de raiz, móveis e gado, direitos e ações que lhe pertencessem para que se gastassem na sua edificação e em tudo o mais que fosse necessário. Posteriormente recolheu-se nessas casas com outras mulheres, nomeadamente sobrinhas e outras parentes. Na altura estariam 11 mulheres recolhidas.
A licença para poder levantar altar, que nele se celebrassem missas e para levantar campanário foi dada por um alvará do cardeal Infante D. Henrique, arcebispo de Évora, a 21 de fevereiro de 1550.
Já a 15 de julho de 1553, era celebrada, em Viana, nova escritura de fundação e doação feita por Brites da Coluna (nome pelo qual Brites Dias Rodovalho passou a ser conhecida em religião) e por outras religiosas. Consideramos que a fundação da casa remonta ao ano de 1548 e que o documento de 1553 é uma confirmação da intenção de D. Brites já antes manifestada, de fundação do mosteiro e de doação dos seus bens, sendo agora esta doação alargada às outras mulheres que aí queriam professar.
Por provisão, emitida a 14 de julho de 1553, pelo arcebispo de Évora, cardeal Infante D. Henrique, sabe-se que as beatas desta casa religiosa queriam viver de acordo com as Constituições e Estatutos da Ordem de S. Jerónimo, pertencentes ao Regimento das freiras, os quais tinham sido feitos no mosteiro da Lupiana do arcebispado de Toledo. Por isso, o cardeal aceita-as debaixo da sua autoridade de prelado e manda ao frei Luís de Baessa, da referida Ordem, que aceite a obediência e a sujeição das beatas. Deste modo, o juramento de obediência às Constituiçõesda Ordem e ao bispo foi feito sobre os Santos Evangelhos a 21 de julho de 1553. Seguidamente o frade deu-lhes a Regra de Santo Agostinho e as Constituiçõesda Ordem de São Jerónimo e as religiosas puderam professar. Umas ainda em 1553, outras já em 1554 e depois outras foram professando ao longo dos anos seguintes. D. Brites da Coluna foi a quarta a professar a e tornou-se a superiora do mosteiro.
Todavia, a pequena dimensão da casa, da mesma invocação do oratório particular da fundadora, impossível de expandir por estar dentro do perímetro urbano, levou a que D. Brites da Coluna tenha determinado edificar um novo mosteiro fora da vila.
A primeira imagem que se pôs na igreja do novo mosteiro terá sido uma Nossa Senhora. Para ele transitaram as freiras em 1560, já depois da morte de Brites da Coluna, ocorrida em 1555. E para o novo edifício foram trasladados os ossos da fundadora onde terão sido enterrados no coro baixo, debaixo da coluna de mármore que suporta o coro alto, acontecimento para o qual se desconhece prova documental.
Algures na década de trinta do século XVII (segundo cremos) a comunidade teria 70 pessoas, continuando a acrescentar-se o edifício com mais dotes. Túlio Espanca, porém, refere que a casa foi planeada para 50 religiosas, mas que nunca teve mais de 44.
Como este era um mosteiro feminino não foi encerrado compulsivamente na sequência do processo de extinção das Ordens Religiosas e de nacionalização dos seus bens, levado a acabo após a implantação do Liberalismo em Portugal, em 1820, esperando-se que ocorresse a morte da última religiosa para se poder fazer a sua venda em hasta pública. Tal só ocorreu em 1902 e só nesse ano o seu valioso recheio pôde ser leiloado a diversos particulares, depois de selecionadas algumas peças para museus e bibliotecas do país.
O edifício apresenta diferentes fases construtivas sendo a mais antiga formada pela igreja, coros (alto e baixo) e claustro com dois andares. O dormitório novo e a enfermaria foram concluídos já no século XVIII. O campanário está no alçado principal junto dos coros. Coroado por frontão pinacular, de estilo barroco, é encimado por um cata-vento de ferro.
Extremamente vandalizado e tendo estado muitos anos em avançado estado de ruína, sofreu os terríveis efeitos da humidade, mas ainda foi possível, mais recentemente – no âmbito de uma intervenção global de reconstrução e restauro – preservar algumas pinturas nos tetos de algumas salas.
Fátima Farrica
Convento de São Francisco
Em 1528, Isabel Cardoso e seu marido, Manuel Fernandes Rodovalho, membros da nobreza vianense, criaram um recolhimento destinado a mulheres, solteiras e viúvas. Este funcionava em casas do próprio casal nas imediações do Poço Novo (situado no cruzamento da atual rua Miguel Bombarda, com a rua António Isidoro de Sousa) e nele existia uma capela dedicada a Nossa Senhora da Piedade. A própria fundadora recolheu-se na mesma instituição após ficar viúva, em data que desconhecemos, mas sabemos que o marido faleceu antes de 1534.
Já em 1544 a Ordem Terceira Regular de São Francisco tomou posse do recolhimento, por vontade de Isabel Cardoso que lhe fez essa doação, de forma a melhor enquadrar a existência da instituição. Aquela passou, então, a ser a regente do recolhimento.
Após a morte de Isabel Cardoso, em data desconhecida, as recolhidas terão sido transferidas para o mosteiro do Bom Jesus fundado, entre 1548 e 1553, que se situava na rua do Poço Novo (hoje rua António Isidoro de Sousa). Mosteiro que foi transferido para um novo edifício na periferia, em 1560, onde hoje está.
Os frades da Terceira Ordem Regular de São Francisco terão dado entrada no edifício do antigo recolhimento por volta de 1580, fundando, a partir de então, um convento masculino. No entanto, a pequena dimensão do imóvel determinou a sua ampliação com doações da câmara e de particulares, sobretudo com o patrocínio de D. Luísa Cabral de Quadros que se tornou padroeira da capela-mor em 1590.
A igreja do convento, com a dimensão que hoje conhecemos, resultará de uma ampliação feita entre 1653 e, pelo menos, 1658. Para aceder ao coro alto é necessário transpor um portal manuelino. As suas características, do princípio do século XVI, revelam que ele é muito anterior a essas obras dos meados do século XVII. E a altura elevada onde está aplicado – criada na estrutura do templo, segundo supomos, pelas obras de ampliação dessa época – levam-nos a crer que originalmente não se posicionava naquele local. Teria, portanto, sido alvo de uma transferência. Talvez este tenha sido o portal principal da igreja primitiva dedicada a Nossa Senhora da Piedade, que ali existia por volta de 1528. Esta é apenas uma mera hipótese especulativa, mas que é suportada pela cronologia e pela feição artística do portal.
Este convento foi encerrado em 1834 – altura em que só já albergava 7 frades – na sequência da lei de extinção das ordens religiosas, sendo vendido em hasta pública, ficando, depois, algum tempo ao abandono.
Já em 1859, por ação do médico António José de Sousa e de sua mulher, D. Maria José Guimarães de Sousa, foi fundado no imóvel o "asilo provisório da infância desvalida"para receber crianças órfãs e uma creche para recolher e alimentar crianças pobres, filhos de trabalhadores rurais, desde um ano e meio a quatro anos de idade, durante os períodos em que as mães trabalhavam.Esta terá sido uma das primeiras creches criadas em Portugal, debaixo da regência das irmãs hospitaleiras das Trinas de Mocambo, de Lisboa. Em 1866, os méritos da instituição terão até sido reconhecidos oficialmente recebendo o patronímico de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Portugal, de acordo com informação de Túlio Espanca. No mesmo ano, a fundação da Associação de Caridade, dirigida por D. Maria José de Sousa e depois pela filha, D. Francisca Deodata de Sousa, veio consolidar o funcionamento dos serviços.
Em 1960 o edifício, sobretudo a Igreja, em remodelação, sofreu completa descaracterização arquitetónica, tendo sido arrancados os quatro altares que a Igreja possuía de talha dourada e marmoreada, barrocos e rococó, dos séculos XVII e XVIII, e o campanário que existia na face norte do templo. A reabertura da igreja ao culto ocorreu em 1967.
O corpo da nave da igreja será do século XVII, em planta retangular com abóbada de meio canhão. As portadas do pórtico são do século XVIII e sobre este existe um janelão da mesma época.
O edifício é hoje habitado pelas Irmãs Escravas da Santíssima Eucaristia e da Mãe de Deus que gerem a creche aí instalada desde 1949.
Fátima Farrica
Capela do Santíssimo Sacramento
Esta capela, hoje inexistente, foi mandada erigir em 1848 por iniciativa do Pe. Luís António da Cruz, o mesmo que fundou o Instituto de Piedade e Beneficência.
Efetivamente, uma das disposições do seu testamento, redigido a 16 de setembro de 1848, foi a doação de dois mil cruzados para a construção de uma capela dedicada ao Santíssimo Sacramento, na igreja Matriz de Viana do Alentejo. Relativamente a esta capela aparecem mais algumas referências ao longo do texto testamental. Depois de distribuir várias peças em metais preciosos por diferentes herdeiros determinou que, tudo o resto que se achasse em casa em prata fosse utilizado para se fazerem uma píxide, o mais valiosa possível, e outras peças de prata para o culto da capela do Santíssimo Sacramento. Outra disposição testamentária consistia no estabelecimento de um montepio, o qual deveria doar, todos os anos, dez moedas para a cera que iluminava o Santíssimo Sacramento e para a festa dedicada ao mesmo, na sua capela. A capela do Santíssimo foi concluída em 1851 e a primeira festa do Santíssimo realizou-se a 8 de dezembro do mesmo ano.
O acesso à capela fazia-se pelo interior da igreja Matriz, onde se situava a entrada da mesma, na parede lateral do lado da Epístola. O corpo da capela ocupava, então, parte do conhecido largo de São Luís, extravasando a muralha sul do castelo.
No Arquivo Histórico Municipal encontrámos um "Auto de Vizita" daquela capela. Pela leitura desse texto é possível visualizar o interior do pequeno templo e, até mesmo, percecionar a sua forma exterior, ao referir-se a existência de uma lanterna no cimo do teto e de três óculos nas paredes laterais.
Do interior ficamos a saber que era espaçoso e iluminado, predominando o mármore, a cor branca e o dourado. As paredes eram apaineladas, fingindo pedra, com molduras e florões.
Relativamente a alfaias litúrgicas documenta-se a existência de uma píxide de prata lavrada e dourada, de dois purificadores e de quatro castiçais, a que se juntariam outras alfaias, da Paróquia e da Confraria do Santíssimo Sacramento. Possivelmente, as peças referidas, ou parte das mesmas, seriam aquelas cuja execução havia sido determinada pelo Pe. Luís António da Cruz no seu testamento.
Pela sua feição arquitetónica e decorativa, foi considerado que o edifício se desenquadrava do contexto, tardo-medieval, do conjunto a que estava anexado, o que determinou, aquando da realização de obras no castelo em 1942, a demolição desta capela por ordem da entidade responsável pelos Monumentos Nacionais.
Fátima Farrica


















