Personalidades


António Isidoro de Sousa

António Isidoro de Sousa nasceuem Viana do Alentejo a 4 de abril de 1843. Era filho do médico António José de Sousa, que veio exercer em Viana nesse mesmo ano, e de Maria José de Sousa.

Formou-se em Agronomia e Veterinária em 1864, aos 21 anos, no Instituto Agrícola de Lisboa com uma tese sobre a agricultura no concelho de Viana, publicada na revista Archivo Rural no mesmo ano.

Isidoro de Sousa privou com várias figuras de destaque na época, a nível nacional, mas recusou sempre os cargos mais relevantes que lhe quiseram atribuir em prol da dedicação à terra onde nascera. Esses cargos foram os de professor da Escola de Medicina Veterinária de Lisboa, diretor-geral da agricultura, deputado e governador civil.

Exerceu as funções de intendente da pecuária em Évora e em Coimbra e de agrónomo distrital em Beja. Foi co-fundador, a partir da década de 1870, da "Liga dos Lavradores do Baixo Alentejo" e membro da Real Associação Central da Agricultura Portuguesa onde organizou o Congresso Agrícola de 1888.

Foi António Isidoro de Sousa quem criou a União Vinícola e Oleícola do Sul, em 1892, em Viana do Alentejo, que foi um dos projectos mais arrojados da sociedade alentejana do tempo e a primeira cooperativa agrícola portuguesa. Deve-se também ao mesmo a criação, em 1893, no âmbito de actuação da União, da Escola de Olaria Médico Sousa, cuja designação homenageia o seu pai.

Encabeçou o movimento que se bateu pela restauração da independência do concelho de Viana do Alentejo, perdida para Évora, em 1895, e, finalmente, recuperada a 13 de janeiro de 1898. Isidoro de Sousa foi eleito presidente da nova câmara neste mesmo ano, cargo que exerceu apenas um ano e que não terá aceitado renovar. Todavia, essa oportunidade permitiu-lhe lançar um vasto programa de obras públicas, onde se destaca as que se desenvolveram no âmbito do abastecimento de água e das canalizações para os chafarizes e fontes da vila.

Viajou pela Europa conhecendo os avanços agrícolas da época que tentou implementar em Viana. Fomentou e planeou o parcelamento de grandes herdades favorecendo o acesso à terra às classes mais desfavorecidas.

Foi ele quem incentivou a associação dos agricultores e o cooperativismo dos operários que sob o seu apoio criaram, em Viana, a Caixa Económica Operária Isidoro de Sousa, em 1899. Esta associação proporcionava socorros mútuos na doença e chegou a ter uma aula de instrução primária para os associados.

Trouxe a Viana Leite de Vasconcelos, destacado arqueólogo, para explorações arqueológicas. Iniciou as corridas de cavalos em Évora e em Lisboa.

António Isidoro de Sousa viria a falecer a 19 de dezembro de 1914, com 71 anos, de hemorragia cerebral.

Em 1940 foi inaugurado um busto em sua homenagem na praça da República e o seu nome é hoje identificador de umas das ruas da vila.

Fátima Farrica


D. Brites Dias Rodovalho

D. Brites Dias Rodovalho foi filha do cavaleiro Diogo Vaz Rodovalho e de D. Maria Esteves Cansado, nobres vianenses. Terá nascido em Viana em 1483, localidade onde faleceu com 72 anos de idade, a 28 de julho de 1555.

O seu nome destaca-se porque foi a fundadora do mosteiro do Bom Jesus.

Brites saiu de casa dos pais aos 16 anos para se ir viver num recolhimento com outras mulheres a que chamavam "as pobres". Estas praticavam a pobreza, a castidade e a oração, não tendo professado como freiras e viviam nas suas próprias casas localizadas nas imediações do Poço Novo (situado no cruzamento das actuais ruas Miguel Bombarda e António Isidoro de Sousa).

Brites Dias Rodovalho terá vivido 13 anos nesse recolhimento, mas tinha a intenção de fundar um mosteiro dedicado a Jesus. Por isso, pediu a seu pai a doação dos bens que lhe cabiam por herança, os quais obteve em 1512 e que consistiam em terras, casas, escravos, móveis e livros.

Depois de receber o dote D. Brites terá decidido recolher-se numas casas que tinha na rua do Poço Novo (atual rua António Isidoro de Sousa) onde comprou outras, com intento de fundar um mosteiro, e aí vivia com algumas donzelas.

Posteriormente, D. Brites terá ido a Lisboa, ao paço da Infanta D. Isabel, onde servia a sua sobrinha D. Leonor Vaz Rodovalho. Aí persuadiu a sobrinha a ir viver com ela em Viana, o que aquela fez. E terá sido a mesmo a Infanta D. Isabel que lhe recomendou a integração do mosteiro que desejava fundar na ordem de São Jerónimo.

Com esse propósito, de uma vida em comunidade integrada nessa Ordem, D. Brites ter-se-á deslocado ao mosteiro de Santa Maria de Belém, vulgarmente conhecido por mosteiro dos Jerónimos, para pedir a aceitação na irmandade da Ordem Hieronimita. Assim, a 24 de fevereiro de 1535, ter-lhe-ão dado o documento necessário para essa aceitação.

Após o avanço nos seus intentos, D. Brites terá regressado a Viana, onde se recolheu no cenóbio, com mais sobrinhas e parentes, e mandou pedir a Roma e ao rei as licenças necessárias para edificar o mosteiro.

Para a fundação do mosteiro, a 30 de abril de 1548, D. Brites fez uma doação de casas, na rua do Poço Novo, onde tinha um oratório com a invocação de Jesus, e de todos os seus bens de raiz, móveis e semoventes, direitos e ações

Em sequência, e depois de apurar que as 11 mulheres que se encontravam recolhidas viviam de acordo com os preceitos exigidos, a 21 de fevereiro de 1550, o cardeal Infante D. Henrique, arcebispo de Évora, emitiu um alvará onde concedeu licença para no recolhimento se levantasse altar e nele se celebrasse o culto divino e para se levantar campanário com sino.

Alguns anos depois o mesmo arcebispo autorizou, por provisão de 14 de julho de 1553, que professassem como religiosas da Ordem de São Jerónimo, colocando-as debaixo da superior autoridade arcebispal

Assim, a 15 de julho de 1553, foi celebrada nova escritura de fundação e doação feita por Brites da Coluna – nome pelo qual Brites Dias Rodovalho passou a ser conhecida em religião – e outras religiosas. Este documento é uma confirmação da intenção já manifestada em 1548, de fundação do mosteiro e de doação dos seus bens, sendo agora esta doação alargada às outras mulheres que aí professaram. As várias mulheres obrigaram-se a viver segundo os Estatutos, Regra e Constituições da Ordem de São Jerónimo, pertencentes ao Regimento das freiras, as quais haviam sido feitas no mosteiro de San Bartolomé de Lupiana, no Arcebispado de Toledo, e todas fizeram doações de bens para a Ordem de São Jerónimo.

O juramento de profissão foi feito na capela do mosteiro a 21 de julho de 1553. Nele juraram sobre os Santos Evangelhos que queriam viver segundo as Regras e Constituições da Ordem de São Jerónimo, pertencentes ao Regimento das freiras; que queriam ter por superior o cardeal Infante, como ordinário do Arcebispado; e que queriam estar debaixo do seu regimento e de seus prelados provinciais. Seguidamente receberam a Regra de Santo Agostinho e as Constituiçõesda Ordem de São Jerónimo. As primeiras religiosas não professaram todas ao mesmo tempo. Em 1553 só quatro o fizeram e em dias distintos. D. Brites da Coluna foi a quarta a professar.

A pequena dimensão do mosteiro de Jesus, da mesma invocação do oratório particular da fundadora, impossível de expandir por estar dentro do perímetro urbano, levou D. Brites da Coluna a determinar edificar um novo mosteiro fora da vila. Assim, a 1 de agosto de 1554 começou-se a edificar o novo mosteiro, por ordem do cardeal Infante D. Henrique, no rocio das hortas da Fonte Coberta.

Para o novo mosteiro transitaram as freiras em 1560, já depois da morte de Brites da Coluna, ocorrida em 1555, e para o novo edifício terão sido trasladados os ossos da fundadora onde se teriam enterrado no coro baixo, debaixo da coluna de mármore que suporta o coro alto. Este acontecimento, a ter tido lugar, tem significado simbólico, tendo em conta o nome adoptado pela fundadora em religião (Coluna) e o facto de ela ter sido a coluna espiritual que edificou o mosteiro. Sepultou-se, por isso, debaixo da coluna que ainda hoje serve de fundamento à obra temporal.

Fátima Farrica


Pe. Luís António da Cruz

O seu nome completo era Luís José António da Cruz e foi um importante benemérito de Viana do Alentejo, onde desempenhou a função de reitor da Matriz.

Foi batizado a 30 de abril de 1777, sendo o filho mais novo de José António da Cruz e de D. Maria Francisca.

Tendo frequentado os estudos em Évora, em 1797 foi-lhe feito dote por seus pais, para poder tomar ordens de subdiácono: um ferragial e olival em Malfor e um ferragial e olival no sítio do Poço Concelho.

O pai foi escrivão da câmara de Viana e Familiar do Santo Ofício (Inquisição) o que permite perceber que nasceu no seio de uma família com proeminência social local e algum desafogo económico. Mas essa condição financeira favorável é mesmo atestada no seu processo de habilitação para tomar ordens, onde algumas das suas irmãs afirmaram que o pai tinha muitos bens além daqueles com que dotava Luís António.

Contudo, para além disso, ao longo da vida o Pe. Luís António da Cruz terá herdado dos pais diversos bens a que juntou ainda outros que adquiriu por compra. Assim, até 1811 havia acumulado 22 fazendas (ferragiais, courelas, vinhas e olivais) e era foreiro de 3 herdades. Pela sua morte, a 26 de setembro de 1848, deixou as herdades de Monte das Pedras, Marmelos, Famais, Montinho do Palanque, Cega Gatos, Flor da Rosa, Espadaneira, Fevereira e Vinagra, 2 quinhões de renda sobre a Herdade da Cegonha e sobre a Herdade do Aniel, a Quinta do Gafanhão e ainda as hortas de Santo António e da Cancela. A estas juntavam-se ainda 24 propriedades de pequena ou média dimensão (ferragiais, courelas, vinhas e olivais). Tal significa que, em 37 anos, entre 1811 e 1848, passou de foreiro de três herdades a proprietário de nove, ao que acrescentou ainda a posse de 2 quinhões de renda em outras duas herdades, de 1 quinta, de 2 hortas e de mais 2 pequenas ou médias propriedades. Possuía também a casa onde morava situada na antiga rua dos Carreteiros, hoje rua Pe. Luís António da Cruz, mudança toponímica operada após a implantação da República, ocorrida em 1910. Os lucros da posse de todas estas propriedades permitiram-lhe acumular uma fortuna que usou, juntamente com as mesmas e com bens de outra natureza, para fins de beneficência. No seu testamento, datado de 16 de setembro de 1848, destinou o seu grandioso património para a manutenção de uma capela de missa quotidiana, de um hospício, de uma escola e de um montepio. Promoveu, assim, a constituição do que se designou, depois da morte do testador, por Instituto de Piedade e Beneficência. Determinou ainda a construção de uma capela para o Santíssimo Sacramento, que viria a ser edificada e, décadas mais tarde, demolida. O Instituto tinha sede na antiga casa de família do Pe. Luís António da Cruz, local vulgarmente conhecido por Casa Pia e onde hoje funciona um dos lares de idosos da Misericórdia de Viana.

Do lado direito da entrada da igreja Matriz, encontra-se o monumento fúnebre erigido em 1859 para receber os ossos do padre Luís António da Cruz, falecido em 1848. No novo espaço sepulcral colocou-se a inscrição: Á Memoria do reitor Luiz Antonio da Cruz, fundador do Instituto de Piedade e Beneficencia d'esta vila, e fallecido em 27 de Setembro de 1848. A Junta de Parochia de Vianna d' Alemtejo em testemunho de gratidão, fez erigir este monumento, e para elle trasladar os seus ossos, no anno de 1859.

Fátima Farrica


Francisco António Lagarto (Mestre)

Francisco António Lagarto é uma referência da olaria tradicional de Viana do Alentejo

Nasceu nesta localidade em 1909, formou-se na escola de olaria de Viana do Alentejo, tendo-se tornado mais tarde professor da mesma instituição, depois de concluído o Exame de Estado nas Caldas da Rainha para se poder tornar efetivo.

A sua mestria e capacidades inatas levaram-no para outras localidades tendo lecionado nas Caldas da Rainha, em Coimbra e no Porto, mais concretamente na Escola Superior de Belas-Artes, onde sempre granjeou grande prestígio.

Era ávido de conhecimento procurando sempre atualizar-se nas mais recentes técnicas.

Juntamente com Aníbal Alcino, igualmente professor da escola de olaria a partir de 1951, procedeu à reforma dos processos de produção cerâmica, dando seguimento às novidades e mudanças já principiadas por Júlio Resende nos anos entre 1949 e 1951.

Por vezes promovia atividades complementares com os alunos, como peças de teatro e revistas à portuguesa onde também tocava alguns instrumentos musicais.

Sempre recebeu a mais alta estima da comunidade onde viveu e trabalhou, que ainda hoje recorda as suas qualidades como mestre oleiro e como ser humano, chegando a pagar as matrículas dos alunos na escola.

Francisco Lagarto viria a falecer em 1977, tendo a população da vila marcado forte presença no seu funeral. Tem hoje o seu nome numa das ruas de Viana do Alentejo.

Fátima Farrica


Joana da Gama

Joana da Gama terá nascido por volta de 1520, em Viana, filha de Manuel Casco e de Filipa da Gama, personalidades que seriam membros da nobreza local.

Fundou em Évora o recolhimento do Salvador do Mundo que deu origem, mais tarde e noutro local, ao convento do Salvador, num percurso semelhante ao de D. Brites Dias Rodovalho para a fundação do mosteiro do Bom Jesus em Viana. Pela cronologia em que viveram, é provável que ambas se tenham conhecido mutuamente.

É uma figura de destaque porque lhe é atribuída uma obra da literatura que a coloca como elemento promotor da condição feminina em Portugal na época. Embora tivesse publicado sob a cobertura do anonimato, é a primeira mulher com obra original em língua portuguesa de que há conhecimento. A obra intitulada Ditos da Freyra. Ditos diuersos feytos por huma freyra da Terceyra Regra nos quaes se cõtem sentemças muy motaueys & auisos nacessarios, é presumivelmente da sua autoria e foi publicada, segundo se crê, em 1555. Saiu uma segunda edição ainda no século XVI, expurgada, porém, dos textos em verso.

Faleceu a 21 de setembro de 1586.

Fátima Farrica