Património Civil
Castelo
Recinto amuralhado de forma pentagonal com cinco torres cilíndricas e duas portas, uma virada a sul e outra virada a norte. Destaca-se no seu perímetro a chamada torre de menagem, adornada por uma coroa de ameias, também conhecida por torre do relógio desde que recebeu este mecanismo, hoje inexistente. O castelo possui pano de muralhas mais antigo, em pedra, que foi mais tarde elevado por ameias em tijolo.
Em 1478 o castelo ainda não existia pois nesse ano havia apenas a intenção, por parte da câmara, da construção de uma "fortaleza e castelo", mas em 1534 esta construção já era uma realidade, ainda que nessa época pudesse ter uma configuração algo diferente da atual.
Esta não é uma fortaleza com funções defensivas uma vez que se situa numa cota baixa, que tem a sul uma elevação do terreno que a suplanta e que, além disso, foi edificada já numa época de apaziguamento do reino. O espaço fortificado foi, sobretudo, um centro administrativo e religioso.
O castelo integrou no seu interior diversos espaços e instituições ao longo dos séculos: a primitiva igreja de Santa Maria da primitiva vila de Foxem (séc. XIII); a igreja Matriz dedicada a Nossa Senhora da Anunciação (séc. XVI) sobre a sacristia da qual se encontra a capela de Santo António (séc. XVI); a igreja da Misericórdia (séc. XVI), a farmácia da mesma e a sede desta instituição, hoje desaparecida por ruína; os Paços do Concelho (até ao final do séc. XVII); a igreja de Nossa Senhora da Assunção (fim do séc. XVII); a Junta de Freguesia (séc. XX) e o cemitério. Este último foi utilizado, provavelmente, desde o século XV e recebeu enterramentos até 1871, altura em que foi construído o cemitério municipal fora da vila.
No pátio do castelo encontra-se um cruzeiro Manuelino (séc. XVI) de rara expressão artística e que é oriundo do local da capela do Cruzeiro, nas imediações do santuário de Nossa Senhora de Aires.
Protecção: Monumento Nacional, Decreto de 16-06-1910, DG n.º 136 de 23 junho 1910 / ZEP / Zona "non aedificandi", Portaria, DG, 2.ª série, n.º 150 de 30 junho 1948.
Fátima Farrica
Cineteatro Vianense
Sucedâneo do cineteatro existente na antiga Sociedade Vianense, o Cineteatro Vianense começou a ser construído em 1945 no chamado curral das Caladas, devendo-se a sua concretização à iniciativa privada de Jesuíno António Simões, proprietário e lavrador local, que pagou a obra.
O projeto, de estilo arquitetónico de inspiração alentejana, é da autoria do arquitecto vianense Bernardino Luís Coelho – também autor do plinto que na praça da República suporta o busto de António Isidoro de Sousa – tendo a execução da obra ficado a cargo do mestre de obras Amável da Costa. As aparelhagens, sonora e de projecção, foram fornecidas pela Philips Portuguesa S.A.R.L.; a aparelhagem eléctrica por J. Roma e as cadeiras e "maples", modernas à época, por Manuel Figueiredo, de Santarém.
O edifício foi inaugurado no dia 10 de abril (Domingo de Ramos) de 1949. Do programa fizeram parte um discurso do presidente da câmara e um espectáculo em que foram apresentados documentários e um filme: O Homem das Sete Vidas. Um policial cómico de 1947.
Em junho de 1950 aqui atuou, num espetáculo de beneficência para apoiar a Cantina Escolar, a fadista Amália Rodrigues e a acordeonista Eugénia Lima.
Tendo mudado de proprietários ao longo do tempo foi adquirido pela câmara municipal vindo a sofrer obras de reabilitação que permitiram a sua reabertura em 2005.
É uma casa de espectáculos de expressão arquitectónica e de dimensão que se destacam no panorama dos edifícios análogos existentes na área envolvente do Alentejo.
Fátima Farrica
Paços do concelho (no castelo, na praça e na rua Brito Camacho)
Desde a Idade Média, os Paços do Concelho, como o próprio nome indica, constituíam-se num edifício que se distinguia dos demais, pelo seu ar de paço (palácio), onde se reunia o concelho dos homens bons, ou seja, o conjunto dos mais ricos e poderosos de uma localidade que tinham sido eleitos para decidir sobre matérias da administração da povoação e do território envolvente debaixo do seu governo. Com a passagem dos séculos a designação de câmara municipal tornou-se mais comum, embora a denominação de Paços do Concelho nunca tenha desaparecido, sendo que as duas formas de identificação se constituem como sinónimas. A denominação de câmara também é medieval e significava sala, divisão, neste caso, onde se reunia o município, o concelho, o conjunto dos homens da vereação (governação). Os Paços do Concelho, juntamente com a cadeia e com o pelourinho eram os símbolos do poder municipal, uma vez que até ao século XIX as câmaras também tinham o poder de julgar e de castigar os criminosos, por exemplo com a aplicação de castigos físicos ou de prisão.
Os Paços do Concelho de Viana mais antigos que se conhecem funcionavam dentro do castelo. Segundo Espanca, do lado esquerdo de quem entra pela porta virada a norte. Este espaço de ocupação é coincidente com a localização apontada por Francisco Baião para a primitiva igreja paroquial, de Santa Maria quando a vila se chamava "de Foxem" (séc. XIII). Deste modo, supõe-se que as duas utilizações se devem suceder no tempo: primeiro um espaço de culto, com a reunião de câmara a efectuar-se eventualmente no espaço que mais tarde deu origem à igreja de Misericórdia ou no adro da igreja paroquial; e, depois, um espaço de governo local, após desafectação do culto com a construção da nova igreja de Nossa Senhora da Anunciação (Matriz). Certo é que, nos Paços do Concelho dentro do castelo, se aclamou, em 1580, Filipe II de Espanha como rei de Portugal. A ser correcto o local atribuído à câmara dentro do castelo, dela restam duas salas térreas com frestas góticas às quais se acede do exterior por portal de mármore. Eventualmente, o piso criado sobre a antiga igreja paroquial e onde se instalou, entre o final do século XVII e o século XVIII, a capela de Nossa Senhora da Assunção, terá servido também para uso dos serviços camarários.
A câmara manteve-se no interior do castelo final do século XVII pois, em 1683, por eventuais razões de falta de espaço, começaram a ser construídos os novos paços do concelho no topo sul da praça. Concluídos em 1701. Esta nova obra coincide com a criação definitiva do cargo de juiz de fora para Viana, lugar que a partir de 1683 foi ocupado pelo Dr. Manuel Pereira Peres.
Nos novos Paços localizavam-se, no piso superior, o espaço de vereação e de audiência (tribunal) e, no piso inferior, cadeia para homens e mulheres, o que determinou a colocação de grades nas janelas.
Na fachada destaca-se a fonte da praça, que foi incluída na construção do edifício; o brasão municipal de "Vianna de Foxen" que, presumivelmente, é oriundo dos antigos paços do concelho no castelo e que para aqui terá sido transferido aquando da nova construção; e placa evocativa da restauração do Concelho a 13 de janeiro de 1898. Note-se que, nesta placa, a data de 1255, que é indicada como a da atribuição de um primeiro foral à vila, resulta de uma confusão com a vila de Fonsim (Aguiar da Beira).
No edifício, hoje muito descaracterizado, funcionaram, ainda, outros serviços ao longo do tempo, tais como a "oficina de águas" e a "casa de aferição de balanças" no rés-do-chão; um centro cultural no 1º andar, após a saída dos serviços camarários; a Biblioteca, instalada em 1980, a que se anexou, mais tarde, o Arquivo Histórico Municipal. Após o encerramento da "oficina de águas" e da "casa de aferição de balanças" instalou-se no rés-do-chão, um Centro de Apoio à Juventude do IPJ (até 1999), o Posto de Turismo (hoje transferido para o castelo) e o Gabinete de Apoio ao Desenvolvimento Económico (também já transferido). A Biblioteca Municipal saiu deste espaço e foi transferida para a antiga escola primária de S. João em 2017 e no edifício dos antigos Paços do Concelho foi criado, no rés-do-chão, um pequeno Núcleo Museológico, aberto em 2021. No primeiro andar foi disponibilizada à visitação pública a coleção de artesanato de José Manuel Água Morna em 2022.
Já na década de 1970, mais uma vez por razões de falta de espaço, a câmara municipal foi transferida para um edifício de maiores dimensões na rua Brito Camacho. Esta casa, vendida ao estado em 1972, era propriedade da família Cabral desde que fora adquirida por Luís de Sousa Fernandes Cabral e sua esposa D. Maria Alice Piçarra Cabral.
A pintura do brasão de armas dos Morais Cardoso Cabral, bem como a decoração pictórica de frisos naturalistas e medalhões com bustos de personagens grego-romanas, de feição neoclássica, que se encontram no 1º andar, são da autoria do pintor e azulejistaJosé Basalisa (1871-1961). Foram executados por ordem de Luís de Sousa Fernandes Cabral, acima citado, lavrador e político local.
Em tecto de sala do rés-do-chão existe também um brasão do século XVIII, igualmente restaurado por Basalisa.
Fátima Farrica
Pelourinho
O pelourinho, ou picota, era um dos símbolos do poder local no passado, juntamente com as casas da câmara e com a cadeia. Por isso, encontrava-se nas imediações dos Paços do Concelho. Consistia num pilar em pedra de valor artístico variável que se dividia em três partes principais: base, coluna e remate. Desconhece-se o local original onde se encontrava o pelourinho de Viana, mas terá estado algures na zona do castelo e/ou da praça, uma vez que estes foram os dois locais onde funcionaram as instalações camarárias até ao século XX. O pelourinho vianense, que alguns autores consideram assemelhar-se ao de Estremoz, possui base em forma de cubo, de faces almofadadas e fuste com dois registos verticais separados por encordoado, sendo o inferior liso e o registo superior de canelado torcido. Embora mutilado, faltando-lhe a parte superior, a sua aparência faz datá-lo do século XVI. Foi construído em pedra mármore, talvez na altura em que D. Manuel I atribuiu à vila o foral de Leitura Nova (1516), e apresenta diâmetro superior à média da maioria dos pelourinhos do mesmo tipo e da mesma época. Todavia, Francisco Baião afirma que o pelourinho de Viana, tal como aconteceu com outros no país, terá sido fabricado a partir do reaproveitamento de um pilar pré-existente da Época Romana, talvez do século IV ou V, e que pode ser oriundo de uma construção da zona do santuário de Nossa Senhora de Aires, onde se encontram vestígios da mesma época. Completo devia atingir cerca de 4,5 m de altura e quase 0,5 m de largura.
Os pelourinhos eram símbolos do poder municipal porque estavam associados à aplicação da justiça, uma das atribuições das câmaras até ao século XIX. Além de servirem para a afixação de editais camarários, as suas funções eram a exposição dos malfeitores à vergonha pública ou a aplicação de castigos corporais. Por isso, possuíam ferros e argolas onde os criminosos eram presos podendo aí ficar patentes ao escárnio ou à indignação da população; ou serem chicoteados ou amputados, no caso de crimes mais graves e em épocas mais recuadas. Muitas vezes os criminosos eram expostos ou castigados nos pelourinhos antes de seguirem para a forca – que Viana também teve – para lhe ser aplicada a pena de morte.
Representavam, assim, o poder absoluto do Antigo Regime, ou seja, a inexistência de uma divisão tripartida do poder (legislativo, executivo e judicial) que vigorou até ao século XIX, mas que se tornou efectiva após a implantação do Liberalismo em 1820, com o poder judicial a ser entregue aos tribunais, instâncias específicas com o poder de julgar e aplicar justiça. Por isso, a revolucionária mudança de regime político ocorrida no princípio do século XIX, que fez abolir o Absolutismo e implantar o Liberalismo, deu azo à demolição dos pelourinhos pelos liberais em muitas localidades do país, sobretudo a partir de 1834. Talvez o pelourinho de Viana tenha sido desmontado nessa altura ou ainda antes. Em 1780 ainda se encontrava de pé, sendo que Francisco Baião aponta como hipótese que, entre esta data e o fim do século XIX, possa ter sido remodelado. Facto é que o seu remate viria a ser integrado na torre sineira do mosteiro do Bom Jesus que sofreu obras de conservação na mesma época. Esse remate já foi, entretanto, recuperado e exposto ao público no Núcleo Museológico situado na praça da República. O mesmo autor aponta, também, como hipótese que os quatro ferros ornamentais existentes numa janela de sacada de uma casa do século XVII da rua Teófilo Braga, dois deles em forma de serpente, possam resultar de um reaproveitamento ou de cópia dos ferros do pelourinho.
A partir de 1870 e até cerca de 1980, o pelourinho serviu de coluna de suporte do telhado de um alpendre no matadouro municipal. Mais tarde permaneceu desmontado no largo do Castelo tendo sido depois levado para o estaleiro municipal e, posteriormente, já em 2003, para o Posto de Turismo (na praça da República) onde foi montado e colocado em exposição. Integrou depois, no mesmo local, o Núcleo Museológico em 2021.
Proteção: Imóvel de Interesse Público, Decreto n.º 23 122, DG, 1.ª série, 231 de 11 outubro 1933.
Fátima Farrica
Fonte do Rossio (ou fonte Coberta ou do Rossio das Freiras) e chafariz
Situada na saída de Viana para Alcáçovas, a fonte Coberta deu o nome à zona envolvente, sobretudo situada a norte, designada por rossio das Hortas da Fonte Coberta, bem como à via de circulação que lhe passa próxima, antigamente chamada de carreira da Fonte Coberta.
Com existência desde o século XV, o nome terá surgido do facto de ter possuído estrutura que a cobria. Já a designação de fonte do Rossio das Freiras tem de ser posterior a 1560, altura em se instalaram as freiras da Ordem de S. Jerónimo no mosteiro do Bom Jesus que lhe fica próximo.
Esta fonte encontrava-se no rossio da fonte Coberta, mas em local mais a sul da sua posição atual, sendo depois transferida, no final do século XIX ou no princípio do século XX (entre 1899 e 1904), para o atual posicionamento. Por essa altura terá perdido a cobertura que lhe dava o nome.
Era destinada ao serviço público com destaque para o abastecimento dos gados. Daí a existência do chafariz designado "do rossio das hortas".
Encimada por frontão triangular e com muro de suporte acompanhando todo o tanque possuiu, até cerca de 1965, um remate superior de ameias "fingidas" com objetivo decorativo. Sobre as bicas subsiste um escudo de armas em mármore, do tempo de D. Manuel I e no frontão foi colocada a inscrição "Comissão dos Pastos. 1904", que se deve às obras de remodelação ordenadas por aquela mesma comissão nesta data.
Fátima Farrica
Fonte da Cruz
De acordo com a inscrição que possui, foi construída em 1898, no mesmo ano da restauração da independência do concelho, no âmbito de um programa de melhoramento das infraestruturas de abastecimento de água à vila que estava em curso por iniciativa de António Isidoro de Sousa. Beneficiou de verbas provenientes de uma subscrição popular e tinha como objetivo o aproveitamento público das águas que afluíam a esse local.
O nome poderá derivar de uma cruz que ostenta no topo ou do facto de estar junto
à chamada horta da Cruz. Também é conhecida pelo nome de fonte das Três Bicas porque possui uma taça com três gárgulas de bronze fundido.
Apresenta uma empena de embrechados, mas terá sofrido alterações à sua traça original na segunda metade do século XX, tais como a retirada dos marcos circulares de pedra que delimitavam o espaço próximo envolvente.
Fátima Farrica
Fonte da Praça
Desconhece-se a data da sua construção, mas em 1313 já se referia documentalmente a fonte Grande, que supomos que se trate da atualmente conhecida como fonte da Praça.
Tem sido erradamente designada por fonte dos Escudeiros, pois esta outra fonte tinha outra localização e hoje já não existe.
A partir de 1683 a fonte da praça terá passado a estar integrada no novo edifício dos Paços do Concelho e da cadeia, construídos na praça a partir dessa data. Existem, no entanto, indícios de que poderá ter sido deslocada do seu lugar original, nas imediações daquele onde se encontra hoje, como forma de promover o ordenamento do espaço envolvente.
Para a sua composição terão sido usadas muitas pedras afeiçoadas trazidas das construções em ruínas do vicus da Senhora d'Aires,
Devido ao seu entupimento frequente e ao desvio de águas que se perdiam sem utilidade, em 1694 foi reedificada pelo mestre do cano da Água da Prata (aqueduto) de Évora, Matias Ferreira.
A parte mais antiga desta fonte, além da taça de receção da água, apresenta dois arcos geminados que assentam em colunas com capitéis coríntios e bases de decoração floral. Estruturas que foram construídas em mármore branco e se enquadram no estilo do Renascimento, de onde provém o facto de, por vezes, ser designada por fonte da Renascença. Na parte superior apresenta vestígios do que teria sido um brasão régio que se encontra mutilado.
A curta distância, possui um banco-guarda frontal, também de mármore, que terá sido reaproveitado de outra construção. Neste distinguem-se figuras em baixo-relevo que representam o sol, a terra e, precisamente, a água, os elementos criadores da vida que estiveram, há oito séculos, na génese da fundação da vila. É possível encontrar ainda outras representações tais como uma figura feminina que parece bailar, aves, cães-lobos, uma albarrada e outros motivos estilizados.
Completam o conjunto estruturas cilíndricas em mármore que também serão oriundas de outra utilização inicial, provavelmente de origem romana.
A partir desta fonte a água seguia pela rua da Água Abaixo, para um chafariz que aí existia, destruído nos anos 60 do século XX para alargar a rua. E depois continuava para os hortejos da zona.
No Aquilegio Medicinal, de Francisco da Fonseca Henriques, obra publicada em 1726, referiu-se como a sua água era abundante e servia para regar as hortas e adicionou-se que possuía propriedades terapêuticas contra os cálculos renais, pelo que a afluência de pessoas a buscar esta água, inclusive de outras localidades, era grande. Também na Descripção da Villa de Vianna, manuscrito posterior a 1751, esta fonte foi citada informando-se que possuía cinco bicas e, mais uma vez, que a sua água teria características medicinais.
Proteção: Monumento de Interesse Público / ZEP, Portaria n.º 504/2011, DR, 2.ª série, n.º 76, 18 abril 2011. A ZEP é coincidente com a ZEP do Castelo e da Igreja Matriz.
Fátima Farrica
Fonte das Freiras
Também é designada por fonte de Baixo, pela sua localização em cota inferior a qualquer uma das outras fontes existentes na vila.
A construção do aqueduto que a alimenta – e que inicialmente se dirigia apenas ao vizinho mosteiro do Bom Jesus – ocorreu no século XVII, no reinado de D. João V, sob licença do Juiz de fora Dr. João da Cunha Correia, a pedido das religiosas. A obra teve, todavia, forte oposição da população que se via privada deste recurso hídrico.
O objetivo era facilitar o abastecimento de água para aquela congregação religiosa, sendo o caudal fornecido pelas águas excedentes da fonte Coberta e as suas sobras utilizadas na rega da cerca monástica e das hortas anexas.
Em setembro 1820, durante uma seca, a estrutura hídrica foi parcialmente demolida com o apoio da câmara Liberal, uma vez que a sua abertura, por se destinar fundamentalmente ao serviço das religiosas, nunca foi bem aceite pela população.
No entanto, o fornecimento de água àquele mosteiro acabaria por ser reposto, por decisão judicial tomada em 1822.
A fonte como a conhecemos hoje resulta de um arranjo de 1896, data assinalada na lápide do topo. Nessa época recebeu intervenção camarária com a comparticipação do povo, como atestam as inscrições "A união faz a força" e "Querer é poder".
Na composição arquitetónica desta fonte terão sido usados elementos em pedra provenientes de outra estrutura mais antiga. Talvez oriundos da fonte Coberta, cuja posição foi mudada mais para norte entre 1899 e 1904 e a sua configuração alterada, nomeadamente com a perda da cobertura que lhe dava o nome.
Fátima Farrica
Fonte e chafariz de Nossa Senhora de Aires
Situada nas imediações do santuário de Nossa Senhora de Aires existe uma fonte que se associa a uma das intervenções milagrosas da Senhora em benefício dos vianenses.
Segundo informação veiculada por Fr. Francisco de Oliveira, estávamos em 1639 quando se vivia uma intensa seca que fez extinguir as fontes e os poços da vila. Todavia, quando a ermitã do santuário e o seu marido cavaram nas proximidades da igreja brotou água do solo, no sítio onde se fez depois a fonte, concluída a 12 de maio de 1640. Contudo, na verdade, a origem da água, que era proveniente de um antigo aqueduto romano localizado nas traseiras da ermida do Senhor Jesus do Cruzeiro e que diversos autores referiram ao longo do tempo, já seria conhecida. E, por cruzamento de diferentes fontes de informação, sabemos que a obra de 1640 terá sido uma reedificação ou construção em novos moldes e não uma edificação original. Em 1534 existia na zona da Senhora de Aires uma fonte denominada de fonte de D. Gregório que talvez fosse a mesma que hoje invoca Nossa Senhora.
A fonte possui espaldar retangular simples, rasgado por friso saliente, sobre o qual assenta frontão triangular com pináculos em alvenaria e que integra uma lápide de mármore evocativa da Restauração da Independência de Portugal e um soneto composto, em 1640, pelo Dr. Domingos Coelho Reidono, natural de Viana, desembargador da Casa da Suplicação de Lisboa e que foi provedor da Misericórdia da vila.
Esta fonte tem anexado um vasto tanque-bebedouro em forma triangular e é adornada por três carrancas antropomórficas de onde jorra a água que ao longo de séculos saciou os homens e os animais e que serviu também para a rega das culturas nas imediações.
Proteção: Incluída na zona de proteção do santuário de Nossa Senhora de Aires.
Fátima Farrica
Chafariz da Praça da Palha
Situado no largo José Falcão, antiga praça da Palha, foi construído em 1904, por intervenção da Comissão de Pastos. É constituído por dois tanques geminados e na sua envolvente existem dezasseis marcos de pedra.
Fazia parte de um plano de canalizações, que englobava a fonte da Praça, a fonte da Cruz e a fonte das Freiras, e que se deve a António Isidoro e Sousa e ao seu irmão Eng. José Fernando de Sousa.
Para o seu lugar estava inicialmente previsto um lavadouro público, equipamento que os habitantes daquela zona rejeitaram.
Fátima Farrica
Lavadouro público da Barca
Num tempo em que não existia saneamento básico, a roupa das populações era lavada nos tanques públicos.
As peças de roupa eram carregadas em trouxas pelas mulheres que se dirigiam até ao lavadouro. Neles, a roupa era ensaboada com sabão (azul e branco, Clarim…) e esfregada na pedra áspera. Neste espaço, exclusivo do sexo feminino, se juntavam várias mulheres da comunidade em ambiente de conversa e convívio. Aí se inteiravam dos boatos e mexericos. Por vezes também se cantava, enquanto se lavava, para ajudar a aligeirar um trabalho árduo e monótono. Os tanques eram, portanto, locais de socialização.
As famílias mais abastadas usufruíam dos serviços de lavadeiras a quem pagavam para lavar as suas roupas. Nas hortas e nos montes das herdades a roupa era lavada nos tanques respetivos e nos cursos naturais de água corrente: rios, ribeiras e riachos.
Depois de lavada, a roupa era colocada a secar. A meio do processo algumas peças poderiam ainda ser expostas ao sol para "corar". Sobretudo a roupa branca. A ação do sol sobre a peça molhada e ensaboada ajudava a eliminar as nódoas mais difíceis. Após ser lavada e enxuta a roupa era de novo carregada para casa.
O tanque da Barca, obra concretizada entre o final do século XIX e o início do século XX, esteve inicialmente previsto para a Praça da Palha (hoje largo José Falcão), na altura em processo de urbanização, mas os residentes não o quiseram lá, razão pela qual o município teve de lhe arranjar outra localização.
Na Praça da Palha acabou por ser construído o atual chafariz em 1904, por intervenção da Comissão de Pastos.
Fátima Farrica
Lavadouro público do Rossio
Os lavadouros ou tanques públicos são estruturas higienistas do século XIX.
A utilização dos lavadouros estava sujeita a regras muito apertadas, ditadas pelas posturas camarárias. Normalmente estavam localizados no término dos chamados "anéis de água" ou "giros de água", ou seja, no final dos percursos que a água fazia, desde as nascentes, passando por fontes e chafarizes para abastecer as populações e os animais, servindo à rega dos quintais, até terminar nos tanques de lavagem de roupa. A partir destes podia ainda servir para regar culturas no campo.
O mais antigo lavadouro público de Viana do Alentejo é o chamando tanque do Rossio, provavelmente contruído nos meados do século XIX, numa época em que na Câmara se fazia sentir a ação do médico Sousa. Este era pai do célebre António Isidoro de Sousa que se debateu pela recuperação da independência do concelho, conseguida em 1898.
Este tanque foi originalmente construído noutro local, embora próximo do posicionamento que ocupa hoje. Em fotografia anterior a 1899, em que é visível o atual Largo 25 de Abril (antigamente rossio da fonte Coberta), o lavadouro surge posicionado onde hoje se situa a fonte Coberta (ou do Rossio). Na época, também esta fonte estava mais a sul, tendo sido transferida posteriormente para o local atual.
Anos mais tarde, o tanque foi transferido para o local onde hoje está, encostado ao muro da cerca nova do mosteiro do Bom Jesus. No seu lugar primitivo está hoje o chafariz que resultou da transferência e rearranjo da fonte Coberta, pela Comissão de Pastos em 1904, a que aquele se encontra adossado.
Fátima Farrica










